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Inauguração marca o fim das obras no prédio do Pop Center
10/12/2012

O Camelódromo de Pelotas chega as suas últimas semanas cheio de histórias

Ocorre na terça-feira (11), às 17h, a inauguração que marca o fim das obras no prédio do Pop Center, o shopping popular de Pelotas. No ato solene, organizado pelo superintendente das centrais da Secretaria de Serviços Urbanos, Mogar Xavier, o prefeito Fetter Júnior (PP) vai descerrar uma placa alusiva à data e, em seguida, realizar pronunciamento público.

Há quase 15 anos, no dia 15 de fevereiro de 1998, as páginas do Diário Popular estampavam o fim das bancas ao redor do Mercado Central e a retirada dos ambulantes para um outro local. Agora, quem desce a rua Marechal Floriano saindo do Centro Histórico, passa pela praça Cipriano Barcelos e encontra - sob uma estrutura com cerca de 50 toneladas de ferro - o local que acolheu esses trabalhadores. Prestes a dar lugar ao estacionamento do Pop Center, o Camelódromo de Pelotas chega as suas últimas semanas cheio de histórias. Pequenos relatos amparados nas cicatrizes de uma vida marcada pela incerteza e pelo trabalho. Pessoas que, de acordo com a socióloga Cláudia Goularte, não se acham “nem incluídas, nem excluídas do mercado”.

Trabalho
A socióloga Cláudia Goularte é autora de um estudo sobre a história, a identidade e a memória dos trabalhadores do Camelódromo. Em 2004, ela alugou por quatro meses uma banca, no mesmo momento em que escrevia o trabalho final para o Mestrado em Sociologia. Lá, como pesquisadora, ela observou, perguntou e escutou. “Tentei me familiarizar e fazer parte daquele período. Fui em busca de histórias. Sem julgamentos, apenas para aplicar conceitos de identidade e memória e quebrar a visão estática sobre a situação”, disse.

De acordo com a socióloga, as histórias de vida desses trabalhadores são carregadas tanto de razões para continuarem exercendo o trabalho, quanto de não razões. Graças à dificuldade em prever o futuro em um meio de vida tão instável, onde riscos oriundos do contrabando, de pirataria e de sonegações fiscais se materializam nas incontáveis histórias de perdas de mercadorias, acarretando prejuízos, endividamentos e resultando (para alguns) na impossibilidade de continuar a trabalhar como camelô. “Eu vi que é um grupo de pessoas que tenta fazer a vida da melhor maneira possível, e que mesmo com as dificuldades do chamado 'setor informal', optou pelo trabalho árduo. Além do que, o Camelódromo criou uma relação de dignidade para as pessoas que eu entrevistei”, disse.

O começo no Camelódromo
Até 1998, a configuração do Centro Histórico da cidade era bem diferente da atual. Durante dez anos a rua 15 de Novembro, entre Lobo da Costa e Tiradentes, foi preenchida pelas mais de 300 bancas de trabalhadores informais.

O grupo de camelôs que deixou o centro da cidade em direção ao atual Camelódromo não é mais o mesmo. De acordo com o estudo de Cláudia, atualmente muitos desses se consideram mais como microempresários do que camelôs. Para alguns, os camelôs são os ambulantes que se encontram no “Centro”. Mais especificamente na rua Marechal Floriano entre General Osório e o calçadão da rua Andrade Neves. Desabrigados do sol e da chuva, sofrendo o enfrentamento quase diário com a fiscalização, o desconforto físico e a reclamação constante dos pedestres que não conseguem caminhar de forma mais rápida pelas vias públicas.

Aos 53 anos, José Adão Santos e a esposa Vera Fonseca, de 48, fazem parte do grupo de camelôs que foi deslocado dos antigos postos ocupados no entorno do Mercado Central. Vera relembra o período como de grande dificuldade, graças às incertezas quanto ao novo ponto, comerciantes assustados com as manifestações e passeatas e protestos dos camelôs contra a retirada da 15 de Novembro. “No fim, o Camelódromo melhorou a nossa situação, mas agora essa incerteza está de volta”, disse.

Prestes a entregar o contrato que garante uma vaga no Pop Center, Vera demonstra preocupação com o futuro. “Não queria mudar, mas vou ter que ir. Não posso fazer nada. Tenho 48 anos e duas filhas que dependem de mim. Se não der certo eu sinceramente não sei o que vou fazer.” O marido de Vera, João, trabalha oito horas por dia fazendo a limpeza tanto dos corredores quanto dos banheiros do Camelódromo. O último dia em que ele irá se dedicar ao serviço será no próximo dia 30. “Trabalho com carteira assinada, mas estou perdendo meu emprego. No shopping popular a limpeza vai ser terceirizada e vou atrás da firma entregar currículo, mas ainda não sei se vou conseguir uma vaga”, disse.

O alto custo
Vanderlice Silva, de 42 anos, trabalha em uma banca. Natural de Minas Gerais, ela chegou a Pelotas em abril de 1992. “Lá (nos arredores do Centro Histórico) era muito difícil e desprotegido. Tinha sol, vento, chuva e era preciso carregar a mercadoria para o depósito. Sozinha era muito difícil, mas as vendas compensavam. Para ter uma ideia, hoje viajo em busca de mercadoria a cada dois ou três meses. Antes era todo mês”, disse.

Atualmente, a despesa mensal das duas bancas que Vanderlice divide com a irmã, incluindo segurança e luz, sai por cerca de R$ 400,00 ao mês. “Mesmo assim, às vezes nos vemos com dificuldade para pagar”, afirmou. No novo shopping popular, de acordo com o contrato, somente o aluguel das bancas das duas custará o total de R$ 772,68 por mês. “Sem contar o condomínio, que ainda não nos foi dito qual será o valor”, concluiu.

Durante a visita da reportagem ao Camelódromo, vários vendedores reclamaram da rigidez do contrato do Pop Center, principalmente com relação aos horários de trabalho. “Não poderemos trabalhar quando a gente quiser ou precisar, como - por exemplo - aos domingos e em alguns feriados”, afirma Vera.

O futuro
Nos últimos meses, a cena era comum aos frequentadores do Camelódromo. Logo após entrar no espaço das bancas, era possível ver amigos jogando conversa fora. Sentamos ao redor da mesa plástica de um bar, à sombra da nova estrutura que ganhava os últimos retoques antes da inauguração. O prédio do Pop Center possui 4,5 mil metros quadrados e abrigará 502 lojas populares, casas lotéricas, bancos 24 horas, praça de alimentação e oito sanitários, além de área reservada para a administração, salas destinadas a cursos de capacitação dos locatários e estacionamento.

De acordo com a socióloga Cláudia Goularte, se o negócio dos ambulantes irá vingar ou não, vai depender de comerciante para comerciante. “A questão principal é que vai ter um custo. Desde 2007 existe o projeto e eles sabiam que isso iria acontecer. Quem usou esse período para se preparar, tem um futuro promissor. Já os que não se prepararam, ou não irão ocupar o shopping ou vão durar pouco e - provavelmente - acabar voltando para as ruas”, concluiu. “Na transição do Mercado pra cá, as incertezas existiam mas as despesas não eram altas. Agora, a gente já vai chegar com dívidas e precisando pagar aluguel e condomínio”, afirma Vanderlice.

De acordo com o coordenador do processo, pela prefeitura, Mogar Xavier, entre todos os comerciantes que participaram da entrega de documentos e sorteio da vaga, não houve qualquer reclamação. No dia 7 de janeiro de 2013 os comerciantes abrirão as portas das 502 bancas aos consumidores. Segundo Xavier, portões entrarão em operação, de forma sincronizada com o acendimento de todas as luzes.

Os alvarás do imóvel, tanto da prefeitura, quanto do Corpo de Bombeiros, serão liberados e mostrados aos presentes na cerimônia. O modelo de parceria com a iniciativa privada, idealizado pela prefeitura, exigiu recursos da ordem de R$ 8,5 milhões.

A prioridade de ocupação no Pop Center é dos comerciantes que já possuíam bancas no Camelódromo, além dos 35 ambulantes que se concentram hoje na rua Marechal Floriano, os 22 comerciantes de calçados que ocupavam o Mercado Central (provisoriamente instalados na travessa Conde Piratini, ao lado da Bibliotheca Pública), 81 da rua Andrade Neves e 21 das ruas 7 de Setembro e Lobo da Costa.

fonte

Diário Popular